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SOBRE O QUE ESTAMOS VIVENDO HOJE A PARTIR DE HERMANN BROCH – Por Itamar Rodrigues Paulino

Os Sonâmbulos, publicado originalmente entre 1930 e 1932. Capa do Volume 1, publicação de 2012, Editora GEN Trade+.


Diante do impacto da ansiedade à medida que nos aproximamos do dia exaustivo da luta do ético contra o autoritarismo das micro-fés partidárias e o conforto ilusório do delírio coletivo, nossa percepção de democracia torna-se uma bandeira a ser empunhada; ao mesmo tempo, cumpre-nos aceitar, por exigência da própria democracia, o risco doloroso da derrocada dos próprios bens que a experiência democrática deveria assegurar.

Risco há.

Então, gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre o que estamos vivendo hoje a partir de meus estudos nos últimos anos. Faço uso da teoria do escritor e filósofo austríaco Hermann Broch (1886–1951), que tratou da psicologia das massas, uma das reflexões mais densas e proféticas da filosofia política do século XX.

Broch viveu na pele o surgimento do fascismo, a ascensão de Hitler e o colapso da Europa entregue ao nazismo, tendo inclusive sido preso pela Gestapo antes de conseguir escapar para os Estados Unidos. Essas experiências alimentaram seus estudos sociológicos, ensaios e romances. Os pontos mais importantes do pensamento instigante de Hermann Broch sobre a psicologia de massa dizem respeito a:

1. A pavorosa “lúcida sonambulia” e a perda do valor fundamental integrador

Na monumental trilogia romanesca Os Sonâmbulos (Die Schlafwandler), Broch desenvolve uma teoria sobre o colapso dos valores. Ele defende nessa obra o seguinte:

  • Dissolução dos sistemas de valor: a Idade Média possuía um sistema unificado de valores (centrado na fé/Deus). Com a modernidade e a derrocada desse valor fundamental integrador, o mundo se fragmentou em vários subsistemas (a lógica dos negócios – ESCH; a lógica militar – PASENOW; a lógica da arte – HUGUENAU).
  • O Estado sonâmbulo: quando o indivíduo não encontra um valor FUNDAMENTAL agregador, ele passa a viver como um sonâmbulo: agindo no automatismo, sem ancoragem ética global e, por isso, fica suscetível a qualquer força exógena que prometa dar um novo sentido à sua existência.

2. A “Teoria da Loucura de Massa” (Massenwahntheorie)

Em suas investigações formais sobre psicologia de massa (compiladas postumamente sob o título Massenpsychologie), Broch analisou como uma população racional cai no transe do delírio coletivo:

  • Pânico e desespero existencial: as massas não são motivadas apenas por ignorância ou pobreza material, mas por um estado de pânico existencial e desamparo (Panik), fruto da dissolução dos valores tradicionais.
  • A busca pelo absoluto: o pânico é insustentável para a psique humana. Para escapar desse vazio, a massa busca desesperadamente um “mito absolutista” ou um líder “demagógico” que ofereça certezas simplistas, dogmáticas e maniqueístas.

3. O fenômeno do demagogo e o Kitsch político

Para Broch, o demagogo totalitário funciona como um canalizador desse delírio:

  • O Kitsch politizado: Broch é famoso pela sua crítica ao Kitsch (na arte e na vida). Ele definia o Kitsch não apenas como “arte brega”, uma espécie de prêt-à-porter ou arte descartável, mas como o sistema do mal na ética, que incentiva a substituição da verdade pela ilusão reconfortante e pela emoção barata.
  • O discurso fascista/populista opera exatamente como o Kitsch: apela para emoções falsas, certezas prontas, bodes expiatórios e estéticas grandiloquentes que alimentam o delírio da massa anestesiada.

4. A literatura como diagnóstico psicológico

Ao contrário de sociólogos tradicionais, Broch usava a própria narrativa literária como laboratório para a psicologia de massa:

  • No romance O Encantamento (Die Verzauberung), ele narra uma aldeia alpina isolada que, gradualmente, cai no feitiço de um fanático itinerante que prega o retorno aos costumes antigos, culminando num ritual bárbaro. É uma alegoria límpida de como o fascismo contamina a psicologia cotidiana de pessoas comuns.

Por que o pensamento de Broch continua atual? Broch nos lembra que as democracias não caem apenas por agressão externa, mas por enfraquecimento psíquico interno. Quando a complexidade do mundo moderno gera ansiedade vertiginosa no indivíduo, a tentação de entregar a própria razão e se dissolver no calor protetor da massa autocrática se torna quase irresistível.


Há saída possível?

Para Hermann Broch, encontrar uma “saída” para o delírio da psicologia de massa era a grande urgência política e ética de sua vida. Ele não se limitou ao diagnóstico; buscou ativamente antídotos contra a regressão coletiva ao irracionalismo. As propostas e respostas de Broch desdobram-se em três dimensões complementares: a ética individual, a ação político-institucional e o papel da arte/literatura.

1. A ética do “Eu Sou”: a reativação do raciocínio individual (não confundir com individualismo)

A primeira linha de defesa contra o pânico coletivo está no plano da consciência individual. Se a massa se forma pelo apagamento da individualidade e pela entrega ao automatismo (“sonambulismo”), a saída exige:

  • Responsabilidade ética incondicional: Broch contrapõe a “massa sonâmbula” à exigência de um despertar ético. O indivíduo precisa recuperar a capacidade de dizer “não” ao impulso coletivo, ancorando-se em uma ética da responsabilidade moral que não dependa de dogmas exteriores, mas de princípios da dignidade humana.
  • Resistência ao Kitsch moral e político: exige-se uma postura de recusa atenta às fórmulas fáceis, às emoções baratas e aos discursos idílicos ou maniqueístas do demagogo. Superar o Kitsch significa aceitar a complexidade e a dor da realidade em vez de se refugiar em ilusões confortáveis.

2. A “utopia” legal: uma ciência do Direito e Direitos Humanos globais

Broch não era apenas um teórico da literatura; ele dedicou anos a redigir propostas políticas concretas durante seu exílio nos Estados Unidos (como o ensaio A Teoria da Loucura de Massa e propostas para a elaboração de uma constituição dos Direitos Humanos).

  • A teoria do Direito e a proteção psíquica: Broch defendia que a democracia liberal tradicional era frágil porque protegia os direitos materiais e políticos, mas não protegia o indivíduo contra o pânico existencial e a manipulação psicológica e ideológica.
  • Um “direito à dignidade humana”: ele propôs a criação de um arcabouço jurídico internacional fundado no absoluto ético do valor da vida humana. O Estado e a comunidade internacional deveriam garantir não apenas a integridade física, mas também as condições psíquicas e sociais que impeçam que a população caia no desespero que alimenta os mitos totalitários.
  • Educação para a autonomia: uma reformulação da educação voltada para o pensamento crítico e a autoconsciência, capaz de imunizar as gerações futuras contra a sedução do fascismo e da demagogia.

3. A literatura e o conhecimento do inconsciente (Gnosis)

Para Broch, a ciência pura e a política instrumental eram insuficientes para deter a loucura de massa porque ambas lidam apenas com a camada racional do ser humano, e o fenômeno da massa opera nas profundezas do irracional e do mito.

  • O romance como instrumento de conhecimento total (Gnosis): a grande literatura (como ele tentou realizar em A Morte de Virgílio e Os Sonâmbulos) tem o dever de preencher o vazio deixado pela perda da matriz de sentido. A arte não deve servir como entretenimento (Kitsch), mas como uma busca rigorosa da verdade e do absoluto, conectando o racional ao mito sem descambar para o delírio.
  • A revelação da complexidade: a literatura autêntica obriga o leitor a encarar a totalidade e a ambiguidade da condição humana, desmantelando as narrativas simplificadas sobre as quais o delírio coletivo se ergue.

Resumo do antídoto brochiano

Pânico Existencial + Perda do Valor Central = Vulnerabilidade da Massa > saída: Ética Individual / [Direito e Instituições] [Literatura/Conhecimento] – Lucidez moral – Proteção contra o pânico – Apreensão do irracional – Recusa do Kitsch – Direitos humanos absolutos – Reconstrução do sentido existencial da vida

Em resumo: a “saída” à la Broch passa por reconstruir um novo absoluto ético centrado na inviolabilidade da dignidade humana, capaz de aplacar o pânico existencial moderno sem recorrer a falsos mitos totalitários.


Sobre os sistemas particulares de valores analisados por Broch

Os sistemas particulares de valores (os chamados subsistemas autônomos ou valores parciais, como a lógica estrita dos negócios, do militarismo, da arte pela arte, da burocracia ou da ciência) podem ser perfeitamente comparados a “células”, “seitas” ou “micro-religiões” secularizadas, ou grupos políticos ideologizados.

Para entender essa analogia à luz do pensamento de Broch, é importante ter em mente três pontos fundamentais de convergência:

1. A estrutura do dogma: o absolutismo de cada sistema

Em Os Sonâmbulos, Broch observa que, quando o valor fundamental (o “centro gravitacional” integrador dos valores humanos, como a fé medieval) se rompe, cada sistema particular autônomo de valores eleva o seu próprio princípio a um absoluto inquestionável. Por exemplo:

  • O sistema econômico: assume o dogma do “lucro pelo lucro”.
  • O sistema militar: assume o dogma da “vitória pela vitória” ou da “ordem pela ordem”.
  • O sistema da arte (l’art pour l’art): assume o dogma do “belo pelo belo”.

Cada um desses subsistemas passa a funcionar como uma seita dogmática. Ele possui a sua própria linguagem fechada (sua “liturgia”), sua própria hierarquia e, fundamentalmente, a sua própria fé. Dentro da lógica do negócio, qualquer consideração ética externa é tratada quase como uma “heresia” que atrapalha o sistema.

2. A perda da visão do todo (totalitarismo do micro-valor)

Assim como uma seita religiosa isolada interpreta toda a realidade exclusivamente através de seus próprios dogmas, cada sistema particular exige do indivíduo uma adesão total dentro do seu domínio. O problema, segundo Broch, é que esses sistemas são cegos para o ser humano como um todo. O indivíduo se torna “sonâmbulo” justamente porque passa a viver fragmentado. Ele age como “devoto” da eficiência no trabalho de manhã, como “devoto” da estética à tarde, e perde qualquer eixo moral global que conecte essas dimensões.

3. O retorno do sagrado irracional nas massas

A comparação com a religião (células religiosas, por exemplo) também explica o fenômeno da psicologia de massa:

  • Como as pessoas não conseguem viver integradas em um mundo onde só existem “micro-religiões” frias, técnicas e funcionais, o vazio existencial e o pânico se acumulam.
  • A massa, então, busca uma “macro-religião política” (o fascismo, o fanatismo demagógico) que junte esses cacos e prometa uma nova fé unificada e absoluta. O totalitarismo, sob o olhar de Broch, nada mais é do que uma religião política pervertida que tenta preencher à força a ausência de um centro ético autêntico.

Síntese da analogia: os grupos religiosos como células fragmentadas do fascismo

Religião tradicionalSubsistema parcial (modernidade)
Dogma sagradoImperativo funcional (ex.: “negócios são negócios”)
Liturgia e códigoJargão técnico e lógica interna do setor
HeresiaApelar a valores externos (ética, humanismo) que brequem o sistema
PromessaEficiência/sucesso dentro daquela bolha específica

Portanto, ao comparar os sistemas particulares a células ou micro-religiões, o diagnóstico é angustiante: a modernidade não destruiu a atitude religiosa/dogmática do ser humano; ela apenas a pulverizou em pequenas fés funcionais e cegas, preparando o terreno para o delírio coletivo das massas, que é o que estamos presenciando nos tempos atuais.


Essa lógica pode ser usada para analisar a atuação dos partidos políticos?

Sim, absolutamente. O mesmo princípio se aplica com rigor ainda maior aos partidos políticos e ideologias partidárias. Na perspectiva do diagnóstico de Hermann Broch sobre a dissolução dos valores humanos e a psicologia de massa, um partido político pode facilmente se converter em uma “micro-religião secularizada” ou uma célula dogmática de valor parcial.

Quando a política perde sua ancoragem em um princípio ético universal (o respeito incondicional à dignidade humana, por exemplo, como ocorreu durante a pandemia, com o desprezo de diversos políticos pela dor do outro) e se autonomiza, ela passa a operar sob o dogma do “partido pelo partido” ou da “ideologia pela ideologia”.

Como um partido se transforma em uma “micro-religião”?

Seguindo a lógica brochiana, isso acontece por meio de três mecanismos centrais:

1. Absolutização do meio como fim (o dogma partidário): o partido, que deveria ser apenas um meio institucional para organizar a vida pública e buscar o bem comum, transforma-se no fim supremo.

  • A lógica cega: tudo o que fortalece o partido é considerado “bom”; tudo o que o enfraquece é visto como “mau” ou “traição”. A verdade factual e a ética individual passam a ser subordinadas à “necessidade da linha partidária”.

2. Liturgia, ortodoxia e expurgo da heresia: assim como numa seita, o partido constrói um ecossistema simbólico e linguístico fechado:

  • Vocabulário próprio: termos que funcionam como dogmas ou anátemas para blindar o grupo contra críticas externas.
  • Inimigo diabolizado: a coesão do grupo não se dá pelo debate racional de ideias, mas pela oposição maniqueísta a um “outro” demonizado (o culpado por todos os males).
  • Expurgo de dissidentes: quem questiona os dogmas internos do partido é tratado não como alguém com uma divergência honesta, mas como “herege”, “traidor” ou “desviante”.

3. Supressão do julgamento individual (“sonambulismo politizado”): o filiado ou militante fanatizado deixa de exercer o julgamento ético autônomo. Ele entra no estado que Broch chama de sonambulismo: delega sua consciência ao comitê central, ao programa do partido ou à figura do líder. Se a diretriz partidária muda do dia para a noite, o militante ajusta sua crença sem sobressaltos racionais, pois o que guia sua atitude é a fé no grupo, não a busca pela verdade.

Exemplos práticos

Exemplo 1: o “centralismo democrático” e a lógica de aparelho (fascismo e estalinismo)

Nos regimes totalitários do século XX, que Broch observou diretamente, o partido único funcionou literalmente como uma religião de Estado:

  • Caso do Partido Bolchevique sob o estalinismo: a “linha correta do partido” (generalnaya liniya) determinava não apenas a política econômica, mas a biologia (caso Lysenko), a estética e a moral. Um cientista ou artista que apontasse um fato evidente em contradição com a cartilha partidária era condenado como “desviante de direita/esquerda”. A verdade não pertencia aos fatos, mas ao partido.
  • Caso do Partido Nazista (NSDAP): o imperativo “o Partido/Líder tem sempre razão” substituiu qualquer código ético anterior. O indivíduo honesto em sua vida privada tornava-se capaz de atos monstruosos quando atuava na lógica burocrático-partidária, porque a moral do partido suplantava a moral humana.

Exemplo 2: a polarização partidária nas democracias contemporâneas

Mesmo fora do totalitarismo explícito, o fenômeno do “partidarismo sectário” se manifesta na política moderna:

  • O fechamento cognitivo (“bolhas ideológicas”): quando a adesão partidária se torna uma identidade quase religiosa, a informação factual deixa de importar. Se o líder do “meu” partido comete um ato ilícito, ele é justificado ou relativizado; se o adversário comete o mesmo ato, é a prova de sua malevolência inerente.
  • O Kitsch político em ação: discursos partidários apelam para narrativas idílicas de “salvação nacional” contra “a ameaça do mal absoluto”, dispensando propostas complexas ou diagnósticos realistas. O militante experimenta o conforto emocional do pertencimento ao “lado certo da história”, imune à dúvida.

A visão de Broch: a crítica ao “aparelho”

Para Hermann Broch, o perigo dessas “religiões partidárias” é que elas são o principal vetor da loucura de massa. Elas instrumentalizam a ansiedade existencial das pessoas, prometendo uma salvação política simplista em troca da abdicação do pensamento crítico. Por isso, na “saída” proposta por Broch, a política autêntica nunca pode ser pautada pelo fetiche do partido, mas sim por uma Constituição do Absoluto Ético, na qual a inviolabilidade da vida e da dignidade humana esteja acima de qualquer programa, comitê ou doutrina partidária.


Para continuar a lutar

Mesmo se, por um trágico paradoxo, a democracia usar de suas próprias regras para cometer o ato supremo de autodestruição, o ser humano não estará desobrigado da razão. A falência de uma engenharia política, por mais valiosa e dolorosamente construída que tenha sido, não decreta, em hipótese alguma, a falência do dever ético de cada consciência.

Quando o sistema desmorona e as salvaguardas institucionais se dissolvem no delírio da massa, a ética deixa de ser uma abstração legislativa ou um discurso de palanque para se tornar o que ela sempre foi em sua essência: uma força de sustentação individual, um último refúgio de sobriedade.

Diante dos escombros das garantias formais, o ruído das multidões e o triunfo da demagogia tentam convencer o indivíduo de que “tudo é permitido” ou de que a barbárie é inevitável. É precisamente nesse limiar que o imperativo mais elementar e límpido precisa soar com evidência absoluta: Não faças o mal; ainda estamos vivos.

Essa máxima brochiana não depende do resultado das urnas, do favor do Estado ou do consenso da maioria. Trata-se do compromisso visceral com a inviolabilidade do outro. O dever de não violentar, de não mentir para se acomodar, de não ceder ao espetáculo do ressentimento e de não se converter em engrenagem do arbítrio permanece de pé mesmo no escuro.

A democracia pode, pela força de suas próprias contradições, vir a falhar; mas enquanto houver sopro de vida e lucidez na consciência individual, o ser humano preserva a capacidade ética de recusar o abismo. O esteio ético é a prova viva de que a dignidade humana não é uma concessão do poder, mas a condição inegociável da nossa existência.


Sobre o autor

Itamar Rodrigues Paulino é pesquisador e docente do Instituto de Formação Interdisciplinar e Intercultural (IFII) e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Ambiente e Qualidade de Vida (PPGSAQ) da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA). Doutor em Teoria Literária e mestre em Filosofia pela UnB, dedica-se a investigar a Epistemologia do Romance, além de temas sobre decolonialidade, memória cultural e saberes dos povos amazônicos.

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